segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Jornal A Tarde publica Sabatina com Prof. carlos 16



"A GENTE PRECISA INVERTER A LÓGICA DE PRIORIDADES"

A luta continua. Carlos José Bispo do Nascimento teve rejeitado o pedido de registro de candidatura para o cargo de governador pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Mas esta é apenas uma das batalhas que ele tem para travar até o dia 3 de outubro, data do primeiro turno. Destaque-se, um dos poucos momentos em que ele ri é quando fala da eleição por vir. “A gente quer eleger deputados estaduais, federais, senador e até o governador”, diz, antes de um riso meio irônico que prece de a afirmação final sobre o que é a eleição para ele e para o PSTU: “As cartas não são usadas da mesma forma”.

Há dois anos no partido, esta será a primeira eleição disputada pelo Professor Carlos, apesar de ele não ver perspectivas de vitória. E de não acreditar que as mudanças defendidas pelo partido dele sejam alcançadas através do processo eleitoral. A eleição, acredita o socialista , é um momento onde eles têm mais espaço para apresentar à sociedade os ideais de mudança para a população O candidato afirma que o nascimento do Estado que ele deseja – onde as riquezas seriam repartidas de forma igualitária – só vai acontecer com uma ruptura.

Ele teve o registro de candidatura negado pela Justiça. Vai recorrer. Mas, pela lógica dele, que diferença isso faz?
Oque o senhor está esperando da eleição? 

Nosso objetivo é apresentar uma alternativa negra e socialista para os trabalhadores e trabalhadoras deste Estado, dentro do nosso programa, que é um programa socialista.

Para a eleição vocês projetam algum resultado? A gente quer eleger deputados estaduais, federais, senador e até o governador (risos). Mas entendemos que as cartas não são usadas da mesmaf orma, o processo não é democrático, a dificuldade é muito grande. O que queremos é apresentar uma alternativa.

E quais seriam os principais pontos desta alternativa?

Uma coisa que é central é a inversão da lógica. Hoje existe a priorização das grandes empresas através das concessões, dos incentivos, dos recursos que são repassados pelo Estado para essas grandes empresas. Conosco haveria uma modificação. Iríamos acabar com essas isenções fiscais para as grandes empresas e esse dinheiro iria ser revertido para os setores da educação e da saúde.

Nessa linha, o partido não deve ter muitos apoios de empresários...

Com certeza, nós não temos nenhum.

E quem apoia as suas propostas? 

A nossa campanha é construída e apoiada pelos trabalhadores e militantes. Todas as pessoas que se identificam com o programa socialista, comum programa alternativo para o Estado da Bahia. Aí, a gente tem professores, trabalhadores em geral, tem estudantes que estão apoiando muito as nossas propostas.

Como você pretende apresentar o socialismo para as pessoas?
Os financiamentos decampanha são feitos pelas grandes empresas, quei rão financiar essas candidaturas e os candidatos eleitos vão representar os interesses dos grandes empresários. Para nós, o socialismo real seria pegar esses recursos, que são destinados a essas grandes empresas e direcionar para os trabalhadores. Aí você teria ganhos reais de salários, aumentos de empregos, melhorias na qualidade de saúde e da educação.

Qual seria o montante de recursos financeiros e que aumentos ele permitiria para ostrabalhadores? De acordo com as concessões que essas empresas recebem, a gente poderia estar até dobrando o salário mínimo, porque é muito dinheiro que é repassado.

Mas você não sabe dizer qual é o valor? 
Não.O valor,a gente não sabe, não.O que sabe éque são milhões de reais.

Mas no momento em que você não consegue precisar o valor necessário, não parece que está dando um chute? 
Vou dar um exemplo claro, então. Na crise de 2008, o presidente Lula repassou para os banqueiros um montante de R$ 360 bilhões. São recursos do Estado repassados para grandes empresas. A gente pegaria esses recursos e repassaria para a população.

As empresas quebrariam?
As empresas não quebrariam. Oque aconteceu com a crise foi uma redução na margem de lucro. Tanto que elas recebera mais isenções fiscais e demitiram para lucrar mais.

Que modelo produtivo você imagina para a Bahia?
Já temos um modelo, não vamos inventar a roda. Por exemplo, o modelo automobilístico deu muito certo aqui,coma implantação da Ford, por exemplo. Nós iríamos criar uma empresa automobilística estatal. Por que não criar? Se a gente dá tantos recursos para que uma empresa privada funcione, podemos ter uma estatal automobilística, com aumento de empregos porque a carga horária não seria extenuante.

E o preço do carro?
Não iria aumentar porque a gente não ia trabalhar na perspectiva do lucro como as multinacionais. Iria produzir carros populares, com valor acessível. Os salários pagos por essas multinacionais aqui no Brasil são os mais baixos do mundo. É a lógica do lucro,da superexploração, da mais valia. Poderíamos ter carros mais baratos, empregos e trabalho digno.

Foto: Jornal A Tarde
Você consegue apresentar suas propostas no horário eleitoral?

Esse é o nosso grande desafio, mas, como nosso programa socialista para os trabalhadores e trabalhadoras deste Estado não surge no momento da eleição, temos diálogos permanentes com os trabalhadores a que temos acesso. A gente não tem condição de apresentar o nosso programa em 53 segundos.

O partido surgiu a partir de uma dissidência do PT. Por quea creditar que o caminho dev ocês será diferente?
A primeira coisa a esclarecer é que a criação do PSTU não aconteceu a partir de um desencanto. Tinha um grupo chamado “Convergência Socialista”, trotskista, dentro do PT. Nãohouve um desencanto, na verdade, a Convergência foi expulsa do PT porque não concordamos com o processo de  adaptação ao regime capitalista. Fomos expulsos por não aceitar as linhas reformistas, de adaptação ao sistema capitalista.A tarefa do PSTU é continuar o processo histórico que o PT abandonou. O PT concorda com a exploração dos trabalhadores.


E a política de recuperação do salário mínimo é uma coisa boa? 

A gente não pode fazer comparação com o pior. A gente precisa comparar com o que deveria ser.O salário é de R$ 510,mas quanto é o lucro das grandes empresas?

Você defende um processo de ruptura?
Sim, nós achamos que a exploração dos trabalhadores só vai se encerrar assim.Quando você pensa na exploração, pensa nas dificuldades de acesso a todos os bens que a sociedade produz. As pessoas não têm acesso à cultura, não têm acesso à saúde, nem à arte. Não pode viajar no fim de semana para conhecer as maravilhas deste País. É uma situação de exploração. Não acreditamos que a situação melhore sem o fim deste sistema.

Essa mudança pode ser conseguida através do voto?
Não. Achamos que não. Sabemos que a eleição não muda ar ealidade.Sabemos que os trabalhadores acreditam nisso, por isso votam, acreditando que vão mudar,mas não modifica.


Se nã o for no voto,como é? 
Através das lutas.É a través das lutas e mobilizações. Através de uma revolução, por exemplo, mais para a frente...

Quais são as propostas para os serviços básicos, como a saúde?
A primeira coisa a colocar é a inversão da lógica. As grandes empresas de saúde se beneficiam das concessões e isenções que o Estado proporciona.

O Estado paga os hospitais privados para que tenha o SUS nesses hospitais.Mas o atendimento é péssimo, muito diferente do atendimento particular. Invés de dar esses recursos para o hospital privado atender mal,posso pegar isso e investir nos hospitais públicos. Temos que pensar na valorização desses trabalhadores, que têm uma carga horária extenuante. Para isso, a gente precisa inverter a lógica da prioridade.

Em relação a outros serviços como educação e segurança você também parte dessa inversão da lógica?

É isso mesmo, agora a questão da segurança, a gente precisa partir da perspectiva do povo, da juventude negra da periferia. Não dá para admitir uma polícia que mata os jovens da periferia. É a polícia repressora do governo Wagner, como foi nos governos anteriores. A polícia tem que ser comandada pelos trabalhadores. No lugar do comandante escolhido pelo governador, que vem de um processo de conchavo, com outros interesses. Eu quero ver se fazem blitze com os jovens brancos da Barra. Nunca vi um monte de jovenzinhos brancos em fila naBarra.

As mudanças têm um custo alto.Quem vai pagar? 

As grandes empresas. Elas vão ser sobretaxadas, vão pagar mais impostos. É o que eu disse a você, é a inversão da lógica. Hoje nós trabalhadores pagamos mais impostos e os juros mais altos, enquanto as empresas recebem concessões, pagam juros menores. Na inversão dessa lógica alguémvai ter que pagar e não vão ser os trabalhadores e trabalhadoras.

Que recado quer deixar para os eleitores?

Nessas eleições há vários candidatos, mas apenas dois projetos. Um quer manter o controle do capital para as grandes indústrias e os grandes latifundiários, que financiam essas campanhas, deWagner, Geddel e Souto. E o nosso, que defende a inversão dessa lógica.No lugar de defender as grandes empresas, nós vamos defender os trabalhadores.

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