segunda-feira, 15 de abril de 2013


NÃO TEM COMO NEGAR, A HOMOFOBIA MATA!
Josias Porto, Juventude do PSTU
Mais um caso de violência homofóbica nos choca e nos indigna: esse final de semana, Itamar Ferreira Souza, um estudante de jornalismo da UFBA, de 27 anos, negro e homossexual foi encontrado morto numa fonte da praça Campo Grande, em Salvador, com evidentes indícios de crime motivado por homofobia (as calças abaixadas até o joelho). Na madrugada de sexta pra sábado, num local próximo a bares gays, Itamar provavelmente só queria ter o direito de namorar na praça com outro jovem, como naturalmente fazem casais héteros. Alguns pronunciamentos policiais e algumas matérias sobre o caso tentam descartar a relação do crime com a homofobia, mas os fatos contradizem.
Esse não é um caso isolado. O Brasil é o país que mais mata homossexuais no mundo e a Bahia lidera o número desses assassinatos. A morte de Itamar e de tantos outros está associada às diversas formas de reprodução da homofobia em nossa sociedade. É inegável que hoje, depois de muita luta e pressão, os LGBTs vêm impondo que aceitem o direito de viver suas relações mais livre e espontaneamente. Mas a reação a esse fenômeno tem sido intensa. A violência homofóbica aumenta a cada dia. Os números apontam um crescimento de assassinatos no país de 21% em relação ao ano de 2011 e um crescimento de 177% nos últimos sete anos. [1]
Quem são os assassinos?
O assassinato de Itamar não foi cometido apenas pelos agressores que executaram o crime. Esse tipo de violência resulta de homofobia enquanto uma ideologia: a aversão e o ódio aos homossexuais, que é alimentada cotidianamente por diversas estruturas da nossa sociedade. Por isso, a grande mídia também é responsável por essa e tantas outras morte. Ela também mata LGBTs quando ridiculariza os homossexuais em seus programas de comédia ajudando a fortalecer a ideologia de que ser homossexual é ser inferior, é ser passível de qualquer chacota e escárnio.
O fundamentalismo religioso também é responsável, porque impregna amplas camadas da sociedade da falsa ideia de que os homossexuais são pecadores e impuros. Bolsonaro, Crivela, Malafaia, Feliciano: todos também são responsáveis. Ou não foram responsáveis pelo Holocausto tanto os carrascos que executavam os massacres nos campos de concentração quanto todos ideólogos e líderes do nazismo (especialmente Adolf Hitler e Joseph Goebbels)?
Os assassinos homofóbicos se sentem mais confortáveis pra cometerem seus atos de crueldade porque percebem que a homofobia segue impune. Uma lei que criminalize a homofobia não vai ser suficiente pra resolver o problema, mas é uma importante arma. A punição exemplar da homofobia a partir dessa lei serve sim para coibir os homofóbicos. Por isso, o governo também é responsável, porque nunca avançou nem para aprovação da lei, nem para outras medidas de combate à homofobia, cedendo sempre às pressões dos conservadores em nome da tal governabilidade.
Ceder para uma “governabilidade” a serviço de quem?
Os projetos do governo federal (Brasil sem Homofobia e Escola sem Homofobia) e as duas Conferências Nacionais consultivas não alteraram a realidade dos LGBTs. O governo abriu mão tanto do “Brasil sem Homofobia”, do Kit anti-homofobia, como da própria PL 122 (que criminaliza a homofobia). A PL chegou a ser entregue para ser totalmente retalhada por ninguém menos que Marcelo Crivella (PRB) e Demóstenes Torres (DEM) e ainda assim segue sem ser aprovada.
Em 2011 a presidenta Dilma suspendeu a distribuição do “Kit anti-homofobia” nas escolas para evitar a abertura da CPI contra o ex-ministro Chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, acusado de aumentar em 20 vezes o seu patrimônio entre 2006 e 2010. E agora entrega a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmera pra ser presidida pelo PSC (Partido Social Cristão).
O governo entra assim num vale tudo para ter maioria na Câmara, não para aprovar qualquer grande transformação para a classe trabalhadora e os setores oprimidos (LGBTs negros, mulheres), mas porque em tempos de crise econômica, a fim de impedir que os empresários paguem o preço da crise que começa a se aproximar do país, planeja duros ataques aos trabalhadores como, por exemplo, o Acordo Coletivo Especial, que retirará dos trabalhadores direitos previstos na CLT através das negociações coletivas, e a nova Reforma da Previdência que dificultará ainda mais as aposentadorias.
A luta é de todos: LGBTs, negros e negras, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras!
Defendemos a mais ampla liberdade religiosa e de expressão, mas não concordamos que os líderes fundamentalistas se utilizem desses direitos para atacar LGBTs e incentivar mais assassinatos e humilhações. Da mesma forma repudiamos a utilização da grande mídia da mesma liberdade para ridicularizar e promover o ódio aos homossexuais, e querer amenizar os fatos quando os crimes acontecem.
Os fatos tem demonstrado que não podemos contar com o governo Dilma nessa batalha. Só os trabalhadores e trabalhadoras em luta, em unidade com os movimentos sociais, os estudantes, negros e negras e LGBTS podem, nas ruas, mudar essa realidade. Por isso, temos que transformar nossa indignação em ação, em luta independente do governo pela saída de Feliciano da CDHM e definição de outro presidente pelos movimentos sociais, pela criminalização da homofobia, com aprovação do PLC 122 original, pelo combate às estruturas homofóbicas dessa sociedade.
No caso Itamar, reivindicamos que a apuração continue, que os culpados sejam punidos não apenas por latrocínio, mas por crime homofóbico, como indicam as evidências. O delegado fez uma declaração que "Não tem nenhuma relação com crime de homofobia, com relação à homossexualidade da vítima. A motivação foi mesmo o latrocínio".[2] Esconder a relação do crime com a homofobia só joga contra o combate a esse tipo de violência e opressão.
Por isso chamamos os centros acadêmicos da UFBA, o DCE, o GGB, as organizações de esquerdas e todos e todas ativistas do movimento LGBT, movimento negro e feminista para ir às ruas, no ato que está sendo chamado para o Campo Grande no dia 20 de abril às 16horas. Chamamos ainda às organizações e ativistas a irem às ruas de Brasília, na grande marcha do dia 24 de Abril, que tem entre outras pautas a luta “Contra toda forma de discriminação e opressão”.  
Criminalização da homofobia, já! Pela aprovação imediata do PLC 122 original, que proíba e puna as práticas homofóbicas!
Investigação e punição para os assassinos de Itamar e de todos os outros homossexuais assassinados no país!
Fora Feliciano e o PSC da CDHM!
Pela aprovação do casamento civil para casais LGBTs em todo território nacional!
Todas e todos ao ato no Campo Grande dia 20 de abril!  
Todas e todos à marcha do dia 24 de abril em Brasília!



[1] Fonte: Relatório Anual de Assassinatos a Homosexuais, GGB.
[2] http://g1.globo.com/bahia/noticia/2013/04/suspeitos-dizem-que-beberam-com-estudante-antes-de-crime-diz-policia.html

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